8. MUNDO 24.10.12

1. UMA CIDADE FILOSFICA
2. O PREO DA LIBERDADE EM CUBA
3. O JOGO DO BILHO

1. UMA CIDADE FILOSFICA
Com filsofa que atende o pblico, seminrios e cadeiras prprias para a reflexo, pequeno municpio italiano atrai turistas
Michel Alecrim

Para Plato, a cidade ideal seria governada por um filsofo, como consta em seu livro A Repblica. Depois de mais de 2,3 mil anos da morte do pai da Academia grega, uma pequena cidade do sul da Itlia, Corigliano dOtranto, resolveu seguir o conselho. Desde que assumiu a prefeitura, em 2006, Ada Fiore, transformou a filosofia num elemento cotidiano da pequena vila de menos de seis mil habitantes. Frases de mestres, como Santo Agostinho, podem ser lidas nas paredes. Cadeiras em formato de livros foram instaladas nas caladas como um convite  reflexo. Ou seja, um parque temtico foi criado, incluindo recursos interativos, o que j atrai milhares de turistas. No cardpio de um dos bares, pode-se ler a pergunta Por que nasci?, por exemplo. O tema  levado to a srio, que at o cargo oficial de filsofo municipal foi criado. Entre as atribuies da ocupante desse posto, Graziella Lupo, est o de prestar consultas  populao.
 
No incio, muitos moradores acharam estranho e ficaram contra. Mas com o tempo, aceitaram, contou Ada  ISTO. Estima-se que 10% dos moradores j tenham sido atendidos nas consultas, sempre concedidas nas tardes de sexta-feira, ou participado de seminrios filosficos. A maioria das pessoas que me procura quer tratar da dinmica de seus relacionamentos, entre pais e filhos, casais, etc., diz Graziella. Na alta estao o parque filosfico recebeu dois mil visitantes, entre os quais, brasileiros que, segundo Ada, resolveram contar suas histrias de vida para outros visitantes. Foi muito emocionante, recorda. 

Enquanto refletem sobre a existncia, os moradores de Corigliano no deixam, entretanto, de ter de enfrentar os problemas reais, como os danos ambientais do aterro sanitrio que atende a regio. Como a filosofia at hoje vem oferecendo mais perguntas do que respostas, a indagao adequada para esse e outros problemas est num dos cardpios de um caf da cidade no qual se l: Por que os erros se repetem?.


2. O PREO DA LIBERDADE EM CUBA
De olho nas remessas de dinheiro que podem dar flego  economia, governo acaba com exigncia do visto de sada 
Mariana Queiroz Barboza

 OLHO GORDO - Governo cubano quer aumentar para mais de US$ 2,3 bilhes as remessas que entram no pas
 
Na sequncia de uma srie de reformas iniciadas por Ral Castro h dois anos, o governo de Cuba anunciou na semana passada a extino do visto de sada para os cidados que quiserem deixar a ilha. A partir de 14 de janeiro do prximo ano, quem tiver um passaporte vlido em mos e uma permisso de entrada em outro pas estar, em tese, livre para viajar. Trata-se da mais importante mudana da poltica migratria em 50 anos. A liberdade, no entanto, ainda pode ser regulada pelas autoridades e tem um preo. Em dificuldades econmicas, o governo cubano precisa desesperadamente aumentar o ingresso de remessas de dinheiro estrangeiro. Segundo o grupo The Havana Consulting, quase US$ 2,3 bilhes entraram em Cuba no ano passado, via remessas de famlias de origem cubana que vivem principalmente nos Estados Unidos. O valor  19,5% maior do que o enviado em 2010, e, na avaliao de integrantes do governo, pode ser aumentado. H dez anos, o total do dinheiro enviado era pouco mais de US$ 1 bilho. Estima-se que mais de um milho de cubanos vivam nos EUA. O que o governo realmente quer so os dlares de fora, disse  ISTO o cubano Jose Azel, professor do Instituto de Estudos Cubanos e Cubano-Americanos da Universidade de Miami, nos Estados Unidos. Segundo o professor, pases da Amrica Latina, como o Brasil, tambm sero pressionados a adotar uma nova poltica para a concesso de vistos a cubanos, considerando que muitos podem no querer voltar  ilha.
 
Atualmente, em Cuba, alm da autorizao prvia do governo  o chamado carto branco  para poderem viajar, os cidados precisam pagar por uma carta-convite do pas de destino. A necessidade desse documento tambm ser extinta. Assim, a medida foi considerada de grande apelo popular, embora mdicos, cientistas, atletas, dissidentes e opositores ao regime comunista de Castro ainda sofram restries para sair do pas. A nova medida tambm estende de 11 para 24 meses o tempo que os cidados cubanos podem permanecer em solo estrangeiro sem perder seus bens nem benefcios como assistncia mdica. Desde 2010, Ral Castro j havia autorizado o trabalho autnomo e flexibilizou as regras para a venda de eletrodomsticos, celulares e imveis.


3. O JOGO DO BILHO
Impulsionados pelas doaes aos comits polticos, Barack Obama e Mitt Romney protagonizam a campanha poltica mais cara da histria. Juntos, eles vo gastar mais de US$ 2 bilhes
Mariana Queiroz Barboza

 DUELO - Ainda no se sabe como o debate da tera-feira 16 impactou nas doaes
 
No anseio de no ser ultrapassado pelo adversrio na corrida presidencial americana, o democrata Barack Obama deve alcanar nas prximas semanas o nmero mgico de US$ 1 bilho em arrecadao de fundos para sua campanha. Assim, sua empreitada para a reeleio ser a mais cara da histria recente. J o republicano Mitt Romney, que de abril a julho dominou a corrida por doaes, estima gastar US$ 800 milhes. Nessa toada, at o dia do voto, em 6 de novembro, democratas e republicanos devem desembolsar no total mais de US$ 2 bilhes. Os candidatos temem que, se no gastarem tanto dinheiro, seu opositor o far e se comunicar melhor com os eleitores, diz Danny Hayes, professor de cincia poltica da Universidade de George Washington. Um tem que fazer frente ao investimento do outro e, dessa forma, so levados a bater recorde atrs de recorde, diz Filipe Campante, professor de polticas pblicas da Universidade de Harvard. O resultado so valores que soam absurdos.

Levando-se em conta um contexto em que os partidrios do atual presidente comemoram um recuo de 0,3 ponto percentual na taxa de desemprego (de 8,1% para 7,8% em setembro), a campanha bilionria parece fora de tom. Para John Hudak, especialista em estudos de governana do Instituto Brookings, de Washington, embora muitos cidados reclamem da arrecadao e dos gastos bilionrios, a crtica no deve utilizar a crise econmica como pano de fundo. O dinheiro vem de doadores individuais, que escolheram fazer isso por vontade prpria, afirma. Mas essa  uma parcela pequena da populao, j que muitos no doam para polticos porque simplesmente no podem gastar dinheiro com isso. A base de contribuintes do atual presidente ultrapassou os quatro milhes de indivduos, o que  um nmero impressionante, mas pequeno se considerado que o vencedor precisar de ao menos 65 milhes de votos nessas eleies, segundo estimativas.

Ao dispensar o financiamento pblico, em 2008, Obama inaugurou a era das campanhas presidenciais bilionrias e abriu caminho para a regularizao dos comits polticos independentes, conhecidos como Super PACs. O resultado foi amplamente favorvel ao democrata. Enquanto o senador republicano John McCain gastou US$ 239 milhes para concorrer  Presidncia, sendo US$ 85 milhes de financiamento pblico, Obama gastou mais que o triplo: US$ 770 milhes. Apoiada por doaes pequenas, mas contnuas, e impulsionadas pela internet, a campanha de Obama h quatro anos descobriu um caminho vantajoso para recusar o financiamento pblico ao se ver livre do engessamento a um teto. Esse , afinal, o maior benefcio que os inditos Super PACs trazem aos candidatos neste ano. Em janeiro de 2010, uma deciso da Suprema Corte americana baseou-se no direito  liberdade de expresso para derrubar os limites de doao para esses comits, que so livres para apoiar quem quiserem. Os Super PACs geralmente so fundados por doadores ricos que contribuem com quantias de US$ 250 mil, US$ 500 mil ou at maiores que US$ 1 milho, diz Liz Bartolomeo, diretora de comunicao da ONG Sunlight Foundation. As portas para despesas polticas esto abertas e h pouca regulao para impedir isso.

Os comits independentes tiveram papel fundamental nas primrias republicanas no incio do ano. Candidatos como Newt Gingrich e Rick Santorum s foram capazes de permanecer mais tempo na disputa por causa do apoio que receberam dos Super PACs. Mas sua real influncia s poder ser conhecida aps o resultado das eleies majoritrias. John Hudak, do Instituto Brookings, v o fenmeno com ceticismo. Campanhas caras so boas para a democracia pelo fato de indivduos estarem doando seu dinheiro e tomando um papel mais participativo no processo eleitoral, mas os Super PACs no tm demonstrado o mesmo poder dos eleitores engajados. Os comits que apoiam Romney gastaram muito mais do que os que apoiam Obama (leia quadro) e a maior parte disso foi para propagandas negativas veiculadas na tev. Ainda assim, as pesquisas mostram os dois tecnicamente empatados. No fim do dia, apesar de todo o dinheiro, o efeito no  o esperado, diz Hudak.

Diretor de comunicao do American Crossroads, comit que apoia o candidato republicano, Jonathan Collegio diz que trabalha por Romney por acreditar em valores liberais, como o livre mercado e governos limitados, e no v exagero no papel dos Super PACs. Nossas atividades atuam como fonte de equilbrio diante do impacto que os sindicatos tiveram nas eleies nos ltimos 80 anos, afirma. S em 2008, eles gastaram mais de US$ 400 milhes para ajudar a eleger Obama. Enquanto alguns crticos defendem que a nova legislao aumenta a influncia das corporaes e afasta os EUA do foco nas contribuies individuais, dados da Sunlight Foundation mostram que a maioria das doaes vem de pessoas fsicas. Segundo a organizao, dos US$ 459,7 milhes j levantados pelos comits, apenas US$ 99 milhes vieram de empresas. Os comits polticos esto interessados em eleger seus candidatos e nem um pouco preocupados com a sade da democracia, diz Danny Hayes, da Universidade de George Washington.

Tanto empenho para a arrecadao de recursos para seus candidatos, entre outras aes, que incluem, por exemplo, ligaes de telefone para potenciais eleitores, retrata um cenrio que no era previsto pelos analistas no incio do ano. A fraca recuperao da economia, de um lado, e a falta de carisma do adversrio de Obama, do outro, resultaram numa disputa apertada, palmo a palmo, mas no impediram que o engajamento dos militantes se desse em nmeros to superlativos. Os momentos-chave da campanha estiveram diretamente relacionados a avanos na arrecadao. Aps o primeiro debate entre os presidenciveis em 4 de outubro, quando a performance de Mitt Romney surpreendeu positivamente os eleitores, sua campanha levantou US$ 12 milhes nas 24 horas seguintes ao evento. Antes disso, a campanha de Barack Obama chegara a um pico de 700 mil contribuintes na semana da Conveno do Partido Democrata, de 4 a 6 de setembro. O impacto do debate da tera-feira 16, em que as pesquisas sagraram Obama como o vencedor por uma pequena margem, no foi divulgado pelas campanhas.
 
A chegada ao marco bilionrio para reeleger um presidente  relativizada pelos cientistas polticos. Um bilho de dlares  muito dinheiro de forma absoluta, mas nem tanto perto da nossa economia, afirma Hayes. Se considerarmos o tamanho do oramento americano ou mesmo de seu dficit anual, que  da ordem de US$ 1 trilho, isso  uma gota no oceano, diz Filipe Campante, da Universidade de Harvard. Dada a importncia das decises do governo sobre os agentes econmicos globais, esse valor no  surpreendente, o que no quer dizer que seja desejvel do ponto de vista social.

